20 de agosto de 2012

Quem carregaria a sua maca?


        
  Certa vez fiz uma dinâmica com um pequeno grupo de mulheres que  liderei  numa determinada igreja em que  pastoreamos. A dinâmica estava baseada na história bíblica do paralítico que desceu pelo telhado ao encontro de Jesus (Marcos 2:1-12). Entreguei para elas uma folha em branco e pedi que desenhassem uma maca e  no centro da maca deveriam escrever um problema pessoal difícil de carregar sozinhas. Depois em cada ponta da maca deveriam escrever o nome de quatro amigos, que se precisassem, com certeza, carregariam a sua maca. Dei alguns minutos e fiquei observando. Não foi difícil para elas fazerem o desenho e escrever o nome do problema, mas na hora de identificar os quatro amigos, aí sim, foi difícil. Olhavam para o desenho, para o alto, escreviam um nome e depois riscavam, mexiam com a caneta, e a maioria, por mais que déssemos mais tempo, não conseguiram encontrar na sua rede de relacionamentos, quatro amigos de verdade. Escreveram um nome, dois no máximo. E olha que estou falando de mulheres que há anos frequentavam a igreja, mas nem mesmo dentro da instituição tinham amigos com esse grau de comprometimento. Teve uma senhora que na hora de compartilhar disse que colocou o nome das filhas, porém, não tinha certeza que ajudariam. Triste não é mesmo?
            Aquele paralítico era sortudo, pois contava com  quatro amigos altruístas que mesmo diante de tamanho obstáculo não desistiram de levá-lo a Jesus. A presença de Jesus na cidade causava uma agitação muito grande nas pessoas, logo, logo juntava uma grande multidão na expectativa de vê-lo fazer milagres,  ou na busca de alcançar uma graça. Naquele dia não foi diferente.  Jesus estava em uma casa na cidade de Cafarnaum ministrando a Palavra e ensinando o povo. A casa estava repleta, havia muitas  pessoas espremidas naquele lugar. Aqueles quatro homens com a missão de levar o amigo paralítico até Jesus, não tinham a mínima condição de entrar pela porta da frente, nem pela porta do quintal e muito menos pelas janelas, todas as entradas estavam bloqueadas de gente desejando ver e ouvir o Mestre. Mas eles não desistiram diante da barreira humana, o amigo tinha que ter um encontro com Jesus naquele dia de qualquer jeito. Não sei qual dos quatro teve a ideia de fazer um buraco no telhado e descer o amigo paralítico, mas com certeza era alguém com um coração de servo, não só o dele, mas também  dos outros que aceitaram a empreitada de bom grado, tudo para ver o amigo curado. Quem sabe os quatro homens moravam perto uns dos outros, e ficavam  conversando na calçada da casa do  amigo paralítico fazendo planos, rindo juntos, comentando sobre um homem chamado Jesus que operava milagres e que logo estaria na cidade e como seria bom o amigo ser curado e andar com eles por toda parte sem ser carregado.
        Tenho medo de altura, faço de tudo para não precisar subir em uma escada, agora imagina aqueles quatro homens, que além de subir no terraço carregando um paralítico impossibilitado de ajudar, teriam  que fazer um buraco , amarrar a maca com cordas e descê-la até Jesus. Fico imaginando a cena - Jesus está ensinando em uma casa apinhada de gente e de repente percebe  as pessoas inquietas, olhando  para o alto, a princípio está caindo poeira, barro, mas logo avistam o rosto de quatro homens, Jesus para de falar, também olha, e fica admirado ao contemplar um paralítico descendo em uma maca com a ajuda de amigos. Jesus entende que aquele doente quer ser curado, fica maravilhado com a cena e o esforço  dos amigos, e opera o milagre, dando àquele homem uma vida cheia de novas possibilidades. Creio que o homem da maca jamais se esqueceu daqueles quatro amigos que o ajudou no momento em que mais precisou. Com certeza a  amizade deles só cresceu depois dessa experiência.
         Quem têm amigos como aquele paralítico, é uma pessoa extremamente rica,  independente se mora na favela ou no Morumbi. A maior riqueza de um homem não são os bens materiais, ou uma conta recheada no banco, e sim, os amigos que conseguiu juntar ao longo da vida. Do que adianta trabalhar tanto, correr feito louco atrás de um padrão de vida ideal e chegar ao fim da vida só. Do que adianta ter tanto dinheiro e não ter um ombro  amigo para chorar no dia mau. Soube de um senhor que os Vizinhos só descobriram a sua morte depois de uma semana quando o mau cheiro tomou conta da rua em que moravam. Ninguém sentiu falta daquele infeliz, nem a sua família, só o descobriram porque cheirou mal e tiveram que arrombar a sua porta. Fico me perguntando como esse homem gastou os seus dias, o que preenchia as suas horas, por que ninguém sentiu a sua falta? E aqueles idosos  esquecidos nos asilos, nos  hospitais por dias ou anos sem alguém para visitar? Por que chegaram a esse ponto de ninguém se importar com eles?
         O relato bíblico me leva a rever os meus valores. De que forma priorizo o outro, quantas vezes abro a porta da minha casa para receber, com que frequência visito os amigos, até que ponto estou disposta a carregar a maca do outro incondicionalmente? Amizade é um investimento maravilhoso, o retorno é a companhia de pessoas queridas que não nos deixa na mão, que nos visita independente de ocasiões especiais, que nos dá a liberdade de ligar às quatro da manhã angustiados, que não nos ridiculariza pela tomada de decisão, que não abandona o barco na hora da tempestade, que é capaz de tirar do seu para nos suprir. Esse tipo de amizade não tem preço, quem tem amigos assim é uma pessoa extremamente rica.
        Faça a dinâmica da maca e veja se têm quatro amigos como os do paralítico. Se tiver, louve a Deus, do contrário, dá tempo de correr atrás e resgatar as amizades que ficaram distantes e também de buscar novos amigos. Só não esqueça, de que o verdadeiro amigo se revela com o tempo. Seja você também o amigo que carrega a maca. De repente você  tem um amigo precisando de um telefonema, uma oração, uma palavra de conforto, uma visita, um ombro para chorar ou quem sabe de colo Talvez ele precisa ser apresentado a Jesus e ter a sua vida transformada. Se Deus o fez lembrar-se de alguém, não se intimide, faça contato com essa pessoa, ela jamais vai esquecer esse gesto seu.
          Você só terá amigos amanhã se os fizer hoje. Não se faz um amigo da noite para o dia, leva tempo, mas vale a pena, pois a verdadeira amizade é para a vida toda.


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